ARTIGOS
 
Onívoro
Ana Mello

Está no dicionário, onívoro é o que se alimenta de carne e de vegetal, polífago,
que tudo absorve, devora. Conheço vários onívoros só na minha família. E todas
as manhãs muito cedo lá pelas quatro horas um ser onívoro me acorda e não
é para pedir o café. Nem tão pouco faz parte da minha família. É o sabiá que canta
na árvore da minha janela.

O sabiá é um pássaro considerado como ótimo cantor e onívoro. Sempre achei
que os gulosos são bem humorados e cheios de disposição, mas não precisava
ser tão cedo. Fiz uma pesquisa para saber se isso acontece só comigo e descobri
que não estou só. Os sabiás estão distribuídos desde o Maranhão até o Rio Grande
do Sul, vivem na mata, nos parques e no centro de grandes cidades, assim como
Porto Alegre.

Tenho toda a oferta de espaços para eles, perto do Parque Marinha do Brasil,
com árvores no quintal. Passei a vigiá-los e descobri os seus irmãos por toda
a cidade. As pessoas costumam deixar nos quintais frutas picadas e potes
com água para servir os visitantes. Tudo bem cuidado é claro, pois as frutas
também chamam as formigas e a água deve ser trocada diariamente para não atrair
o mosquito da dengue.

Descobri também que seu canto é marcado por variações regionais, e dizem
os entendidos que eles cantam para demarcar território e atrair as fêmeas.

Estabelecidas as características do meu amigo onívoro, com toda a glória
para Gonçalves Dias com sua Canção do Exílio:
... Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. As aves, que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá...
Peço ao sabiá, que se estiver lendo essa coluna, pare de cantar tão cedo, antes
que eu leve a sério essa história de devorar e me torne literalmente um ser onívoro.
 
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