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Ficção
Ana Mello
É criação de coisas imaginárias,
fantasia. Vale inventar para criar um conto,
escrever um romance. Escritores inventam, mas não
são considerados mentirosos,
embora a mentira possa ser encarada também como
uma história fantasiosa.
Mas mentir é desonesto. É uma fraude.
Por isso gosto de escrever, posso fazer coisas através
dos meus personagens
que jamais faria na vida real. No começo achei
difícil, parecia impossível matar outra
pessoa, roubar, e outros delitos mais leves. Mas foi ficando
cada vez mais simples.
Acho que tomei consciência da distância que
me separa dos meus personagens
e de como isso pode ser divertido.
Os leitores mais chegados cobram sempre, querem saber
por que disse isso
ou aquilo, quando fiz aquela viagem. A resposta é
sempre a mesma: pura ficção.
Nem sempre as pessoas acreditam. É claro, explico
que tem a ficção misturada.
Misturada com fatos reais. Para dar um colorido, uma emoção,
aquele efeito
que prende a atenção de quem lê.
Tenho que mostrar personalidade firme, porque isso de
poder ser e fazer
através das palavras põe em dúvida
quem é realmente o escritor e o personagem.
E de repente ninguém mais confia no escritor.
Posso também ficar excêntrica e assumir um
personagem escritor, que não conta
nunca o que é real, o que sente ou pensa. Mas para
isso acho que preciso de mais
fama e fortuna. No momento o melhor é ser assim
quase normal. Cheia de idéias
e explicações, com amigos e família
por perto.
Isso de mentir com convicção é para
criminosos, que costumam repetir sua versão
tantas vezes que acabam considerando-se realmente inocentes.
E se duvidar todos
também acreditam, até os advogados. |
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