Onipotente
Ana Mello
Os mais velhos, na maioria, têm dificuldade para
usar computadores e muitas vezes
para entender até onde eles podem ser usados
para resolver tudo.
Ouvem coisas incríveis sobre o que se pode fazer
e saber com a tal da internet.
Tentam manter-se atualizados e integrados nas conversas,
mas as vezes exageram,
imaginando coisas que só em um futuro bem distante
poderá ser realizado.
Minha mãe perguntou quem vencerá o tal
BBB. Respondi que não sabia,
tem paredões e votações e manipulações
pela frente. Ela logo foi dizendo toda
sabida que eu deveria ver na internet. Ela ouve os netos
dizerem que na internet
tem as informações de quem será
eliminado, quem é o favorito. Quase certo.
Outro dia ela me viu escrevendo, digitando para ser
mais precisa, e foi logo pedindo
para que eu fizesse uma pergunta para minha sobrinha
que mora em outra cidade.
Expliquei que ela precisava estar conectada. Ah! Disse
ela, achei que vocês falavam
pelo computador. Sim, expliquei, tive que explicar o
que era conexão.
Minha sogra um dia ligou e pediu um extrato da conta
dela. Levei um tempo
justificando que precisava o número da conta,
a senha de internet era secreta
e só ela poderia digitar no meu computador. Ela
ficou um pouco chateada, afinal
o gerente do banco disse que dava para ver na internet,
só não explicou os detalhes.
A mãe do meu amigo ligou e pediu que ele imprimisse
a segunda via do documento
de pagamento do seguro dela, tinha pressa. Ele explicou
que precisava de um
número mínimo de informações
para tentar atendê-la. Ela ficou desconfiada,
esses meninos têm preguiça de atender aos
pedidos das mães!
De brincadeira falei para ele que devia ter acessado
o Google e digitado – segunda
via do seguro da minha mãe. No futuro, será
possível. E nós é que ficaremos
atrapalhados com a onipotência da internet.
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