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ARTIGOS E COLUNAS

Troca
Ana Mello

Os paradigmas estão aí para serem quebrados, mas às vezes é difícil acreditar
nas exceções. Sempre acreditei que depois dos cinqüenta anos qualquer mudança
radical, importante, é quase impossível. Que ninguém consegue mudar suas atitudes
depois de tanto tempo aprendendo, experimentando, adaptando seu comportamento.
Pois tenho uma amiga que tem setenta e oito anos e mudou radicalmente de atitude perante a vida. Claro, ela sofreu uma perda, ficou viúva de um casamento com mais
de cinqüenta anos.

É certo, quando acontece algo de muito impacto as pessoas podem mesmo mudar.
Mas o interessante é que essa minha amiga era dedicadíssima ao esposo, fazia tudo
para ele. Alcançava a toalha no banho, servia o prato no almoço, buscava um copo
d’água a qualquer hora. Carinhosa, amiga. Porém tinha um temperamento autoritário
e controlador, pessimista na maior parte do tempo.

Nunca era feliz por completo, sempre tinha um “é, mas pode acontecer algo ruim”.
Ele era o otimismo em pessoa, sempre tranqüilo, apaziguador, confiante. Quando
ficou viúva, temi que ela ficasse deprimida, fechada em casa, temendo o futuro,
já que vivia para ele.

Levou um tempo para se recuperar, sofreu, mas tocou a vida com fé e confiança.
Arrumou a casa, está cuidando da aparência, demonstrando alegria e esperança
no futuro, não importa como ele venha. Que venha bem.

Eu diria até que ela assumiu a personalidade do marido que morreu,
quase totalmente. Ficou apenas com a fibra e a força que já possuía.

Se é possível, eu não sei, mas aconteceu.