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ARTIGOS E COLUNAS

Enrolando
Ana Mello*

Não está longe o dia em que vamos resolver os nossos problemas como o pessoal
da TV a cabo vem fazendo. De maneira limpa e segura, para eles, é claro.
Ligamos para um número, falamos com uma gravação que entende nossa voz.
Dizemos qual o nosso problema, ela verifica se nosso número é cadastrado,
confere nossos dados e promete um atendimento humano em seguida.

A voz do outro lado parece humana, mas obedece a comandos padronizados
e não interage perfeitamente conosco. Apresenta-se com nome de gente
e nos fornece um número relacionado ao nosso problema. Não aceita reclamações
porque reclamações são em outro número, que nunca atende. A visita de um humano
fica marcada. A pessoa não vem e ligamos novamente. Do celular, pois o telefone
na nossa casa está vinculado à internet e a TV. Gastamos nossos créditos
e derrotados abrimos mais um protocolo e recebemos outro número.

A situação se repete, outra voz padronizada liga de um telefone fora do estado,
boa idéia deles, assim fica mais caro se quisermos ligar para este mesmo número
reclamando. Assim num círculo vicioso, somos derrotados. Não cancelamos o serviço,
pois somos escravos da TV, da internet, do telefone. E já estamos acostumados
a falar com gravações, perder dinheiro, aceitar armadilhas.

Até quando?
Até que um dia vencidos pela tecnologia também resolveremos nossos problemas
assim: enrolando. Ou quem sabe podemos retribuir ao receber ligações dizendo:
nossas posições estão todas ocupadas no momento, nosso tempo de espera
é de infinitos minutos.