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Em uma janela
Ana Mello
Visitei meu sogro que está hospitalizado fazendo
exames. Da janela do quarto
uma bela vista do quinto andar. Silêncio, ar condicionado
em uma temperatura
confortável. Lá fora o mundo, a vida passando
em ritmo diferente. Como se eu
estivesse em outra dimensão.
Outros prédios formam o grande complexo hospitalar,
na frente o hospital da criança,
muitas janelas. Tento identificar silhuetas que se movem
de um lado para outro.
Quantos pacientes estarão hoje sem nenhuma perspectiva
de melhora, nenhuma
opção de vida. Outros saindo, em um sábado
chuvoso, cheios de esperança.
Mesmo com um prognóstico nada favorável
meu sogro permanece otimista, quase
feliz, com a atenção dos filhos, talvez.
Impossível não pensar no futuro de todas
as pessoas da minha família, nos meus amigos. Nas
outras pessoas que passam
com suas vidas, hoje cruzando a minha. Que olham assim,
do lado de dentro
das janelas, como se tudo lá fora estivesse longe
e não pudesse atingi-las.
Lá longe, do outro lado, é que tudo acontece.
Um vento forte, uma chuva
devastadora ou talvez um sol que brilha para outras pessoas.
Metáfora antiga, os olhos como janelas da alma,
que observam tudo. No íntimo
os conflitos não revelados a mais ninguém.
É frio ainda, acho que novembro deveria ser mais
quente. Tantas coisas deveriam
ser diferentes. E não são. Depois de um
tempo tudo parece que foi assim como
realmente precisava ser.
Parece fácil, daqui de dentro da minha própria
janela.
Mas a vida é muito perigosa. A gente vive, eu acho,
é mesmo para se desiludir
e desmisturar. Como diz o Riobaldo, personagem de Grande
Sertão: Veredas,
do Guimarães Rosa. |
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