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| Janeiro |
| Ana Mello * |
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Nessa época, há muitos anos, sempre tiramos
férias.
Agora nosso guri está fazendo vestibular e trocamos
de data.
Interessante a cidade em janeiro, é muito bom,
tudo mais calmo,
rotação mais baixa. Dizem que na praia
também é melhor em fevereiro,
pois a maioria prefere férias no primeiro mês
do ano e depois tudo
fica mais tranquilo por lá, veremos.
Mudanças são interessantes, mexem com
a imagem das coisas,
fazem o cérebro trabalhar. Parece tudo com outra
cara, novo.
É uma enganação que aplicamos na
rotina. Gosto de certa rotina
para executar tarefas simples, mas às vezes preciso
alterar tudo.
Embora meu trabalho siga métodos, em casa, segundo
meu marido,
não tenho método preciso. Por exemplo,
meu café nunca fica com a mesma
temperatura e com igual quantidade de adoçante.
Realmente, aqueço o leite
no micro-ondas por tempo determinado, porém nem
sempre todo o leite
está gelado e isso muda tudo. Além do
mais estou sempre pensando
em coisas mais nobres ao mesmo tempo. Uma poesia, uma
crônica,
um livro, um filme, uma música, sei lá.
Só fico totalmente concentrada se vou fazer algo
perigoso,
mesmo assim não dirijo, seria mais um perigo
nas ruas.
Sábado estava no mercado, na fila do caixa, longe
do caixa ainda.
Fiquei olhando os itens da prateleira ao lado, vendo
preços.
Quando ouço o barulho de taças quebrando.
Uma moça atrás de mim
derrubou duas eu acho. Logo comecei a arredar os cacos
para que ninguém
pisasse e ajudá-la. A danada era a última
da fila e saiu de fininho.
Fiquei com a maior vergonha, pois todos me olhavam
como se eu tivesse feito o estrago.
Olhei com a cara mais apavorada e falei, não
fui eu, o que toda a criança diria,
mesmo sendo culpada. O rapaz do mercado disse que não
tinha problema
e advertiu-me para que cuidasse para não ferir
meus pés. O casal da frente
comentou que a situação era engraçada,
que já tinha acontecido algo parecido
com eles que ao saírem de uma loja foram barrados
pelo som de um alarme.
Algo estava errado na sacola de compras. Era só
um imã esquecido
pela vendedora, mas foi constrangedor. Pois as pessoas
que nos olham
no momento do flagrante não assistem o esclarecimento
dos fatos.
Finalmente disseram que viram que não quebrei
as taças.
Ficamos então pensando porque a moça fugiu.
Eu teria assumido, foi sem querer,
as taças estavam mal posicionadas e se assim
mesmo tivesse que pagar, pagaria.
Como tem gente estranha na cidade em janeiro! |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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