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| Casa nova |
| Ana Mello * |
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A casa própria sempre foi um dos objetivos do
meu pai,
infelizmente ele não conseguiu realizar, mas
passou para mim
com muitos dos seus sonhos. Motivada por ele comecei
a trabalhar cedo,
comprei a casa própria juntando esforços
com meu marido,
concluí o ensino superior e muito mais. Foi ainda
mais gratificante
porque conseguimos comprar nosso primeiro apartamento
sem ficar
com nenhuma dívida, com dinheiro do nosso trabalho.
Agora até já fizemos uma primeira troca,
para melhor.
A entrada do ano novo este ano foi na casa nova dos
meus sobrinhos.
Sonho batalhado e financiado dentro das suas possibilidades
e com promessas de um futuro maravilhoso, já
dá até para imaginar.
A energia deles junto com a filha e os demais familiares
é empolgante.
Ao vê-los fazendo arrumações, cansados
e felizes, relembro momentos
que também passei. É muito bom. Casa é
aconchego, porto seguro,
lugar para receber quem a gente gosta sentar e conversar
na volta da mesa.
A casa é o centro do mundo, o refúgio,
o íntimo de cada um.
A casa em silêncio. Todos dormem até que
o sol pense em aparecer.
A mãe acorda e o cheiro de café impregna
o ambiente onde o sono teima
em manter o filho na cama. O pai levanta e o ruído
navega entre os lençóis,
fronhas e travesseiros. Logo todos comem as frutas e
o pão,
xícaras quase vazias. O jornal informa a previsão
do tempo.
Escovam, ouvem, olham. A casa vê no espelho da
sala. Saem,
e o silêncio é quebrado pelo canto dos
canários. A casa quieta.
A tarde é lenta, e o sol entra por outra janela,
vai longe, do quarto
ao quarto até que as sombras anunciam a volta
da família,
quando a cozinha transforma a casa em aromas e sons.
A água, os pratos, a mesa. Os temperos que compõem
o jantar.
As conversas animam a casa, com um pouco de todos e
um espaço
de cada um. As roupas, as fotos na parede, os livros
na estante,
os brinquedos no tapete. A família guarda na
casa sua história
e é a própria casa.
Escrevi este miniconto pensando em metáforas
que iluminam a casa
e ao mesmo tempo na casa que cada pessoa é, com
seus quartos,
salas, porões, sótãos e bibliotecas.
Os amigos e familiares
habitam nossas casas, discutem a relação,
mudam a vida,
desarrumam e arrumam, compartilham e encenam novas realidades
e novas emoções. A casa nova é
uma etapa, um degrau de renovação
de sonhos, de promessas e de futuro. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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