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| O cavalo |
| Ana Mello * |
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Cavalo é o bicho mais inteligente e traiçoeiro
que eu conheço. Eles percebem
de longe quando a gente tem medo e são cheios
de estratégias para posicionar
as patas traseiras ao alcance do peito de quem se aproxima.
Ou em outra parte
dolorida que eles possam alcançar. Lançam
aquele olhar meio de lado com seus
grandes cílios e dão aquele relincho curto
que mais parece um sorriso.
Dissimulados ficam medindo a distância de aproximação
das suas vítimas.
Tenho um amigo que compartilha desse meu pensamento
e até viveu uma cena
digna de relato.
O cavalo do Zé parecia ser o mais manso da fazenda.
Aliás, foi destinado
a ele sujeito da cidade, por isso mesmo, por não
oferecer nenhum perigo.
No primeiro dia de cavalgada, se é que dá
para chamar aquele trote lento e moroso
de cavalgar, o capataz da fazenda entregou as rédeas
do cavalo já encilhado
na mão do meu amigo e ofereceu até uma
ajudinha para que ele montasse.
No segundo dia logo depois do café da manhã,
o José Luiz, o Zé,
se dirigiu ao galpão, pegou a corda e decidido
foi laçar o cavalo para sair.
Os peões bem que se ofereceram para pegar o animal
que pastava no campo,
mas meu amigo disse que não seria necessário,
ele mesmo pegava.
Caminhando em direção ao animal já
percebeu aquela olhada lateral,
uma piscadela de olho e um relinchar debochado. Baixou
até a cabeça,
parecendo que esperava o laço, mas quando sentiu
o cavaleiro a dois passos
do seu pescoço, sutilmente deu dois passos a
frente. Zé fez aquele som
de beijocas com a boca e chamou a montaria com respeito.
O maldito deu uma relinchada e andou mais alguns passos
para frente.
Nessa altura do desafio, Zé olhou para o galpão
e viu a peonada sentada
em seus bancos, assistindo a peleja. Até acenaram
incentivando,
ele ou o cavalo, não deu para perceber ao certo.
O lado engenheiro do Zé começou a funcionar
e ele tramou tudo
como se desenhasse em papel. Faria a volta pelo outro
lado e embretaria
o cavalo no canto da cerca. Respirou fundo e deu a volta
no corpo do animal
à distância e foi se aproximando, porém
ele, o cavalo, usando de toda inteligência
e astúcia, afastou-se antes, dando ele a volta
no engenheiro.
Aí foi demais, melhor desistir com honra. Zé
deu uma passada de mão
nas bombachas, arrumou o chapéu, e voltou a passo
para o galpão.
Os empregados estavam dando risadas, não se sabe
bem porque e logo
um deles muito prestativo se ofereceu para trazer a
montaria.
José orgulhoso resolveu deixar à cavalgada
para uma próxima oportunidade,
afinal estava cansado e injuriado com o cavalo. Eita
bicho traiçoeiro. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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