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| O sabor das palavras |
| Ana Mello * |
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Adoro cozinhar e gosto de receber amigos em casa. Com
tudo planejado é claro,
prefiro deixar as coisas encaminhadas para poder conversar
e não ficar na cozinha
o tempo todo. Acredito que os alimentos são como
textos, os temperos precisam
de medida certa, nem sempre agradam a todos se forem
muito marcantes.
Tento caprichar o máximo, ofereço as bebidas
que os convidados apreciam
e faço várias sobremesas. Não costumo
inovar quando os visitantes aparecem
pela primeira vez, para não deixar uma impressão
ruim, porém comida
é como literatura e podemos errar com uma velha
receita.
No sábado fiz lasanha e paguei um mico. O queijo
que usei entre as camadas
veio fatiado e separado por lâminas de plástico.
Falhei, uma lâmina ficou
entre as camadas e quem pegou foi o namorado da minha
sobrinha. Logo ele,
com quem eu implico um monte, ameaçando para
que cuide bem da minha mimosa.
Mas tenho certeza que fui perdoada.
Comida e livros formam uma boa parceria. Tão
boa que teremos um projeto
maravilhoso na Feira do Livro de Porto Alegre, uma verdadeira
degustação literária,
onde os convidados comerão os textos impressos
em papel de arroz aos quais
será agregado um sabor. Será realizado
um bate-papo de Receita Literária
no estande da Caixa Econômica Federal. Vários
autores irão participar
– Airton Ortiz, Carlos Urbim, Charles Kiefer,
Christina Dias, Cíntia Moscovich,
Cláudia Tajes, Fabrício Carpinejar, Laís
Chaffe, Leonardo Brasiliense, Letícia
Wierzchowski, Luiz Dill, Luiz Paulo Faccioli, Moacyr
Scliar, Paula Taitelbaum,
Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Sérgio Napp
e Ana Mello.
Vou participar desta atividade no primeiro dia da Feira,
dia 30 de outubro,
quando sair a programação oficial eu conto
tudo.
Esta oportunidade me fez pensar em que sabor os meus
textos possuem.
Poesias lembram frutas e meus tercetos são morangos
ou uvas que podem
ser saboreados de uma bocada. Poderiam ser gomos de
bergamota ou laranja
também. Os minicontos são tortinhas ou
talvez empadinhas ou pequenos pastéis.
As crônicas estão mais para pizzas ou quem
sabe cucas.
O interessante de tudo isso é que as pessoas
vão comer palavras e não tem nada
de violência é pura gastronomia. Metáforas
a parte não desejo que nenhuma
palavra tenha sabor amargo ou fique atravessada na garganta
de alguém. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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