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Conheço muitas pessoas que gostam de contar
e interpretam,
produzem curiosidade nos ouvintes. Não são
profissionais,
nem são daqueles que se especializam em contar
histórias para as crianças,
o que é muito bacana também.
Acredito que seja uma atração, bons
ouvintes atraem pessoas que gostam
de relatar. Ouvir é um exercício de
paciência, de respeito com quem está
falando
e foi assim que tudo começou, antes do registro
impresso as histórias
eram reproduzidas oralmente. Minha avó sempre
dizia que quando um burro
fala o outro burro murcha as orelhas e explicava que
esse ditado popular
tem dois sentidos. Murchar as orelhas significa ficar
quieto, mas também
pode significar não ouvir, porque as orelhas
estão baixas e isso atesta a ignorância,
pois quando alguém fala, mesmo que fale tolices,
é preciso ouvir e pensar
para tirar conclusões precisas.
Algumas pessoas, porém, gostam mesmo de escutar
sua própria voz.
Fazem perguntas só para poderem responder,
opinar e fazer valer seu pensamento.
Não é dessas que quero falar. Admiro
as que gostam de falar em hora oportuna,
atraem os ouvintes revelando suas experiências,
contando coisas que aconteceram
com elas e das quais tiram conclusões. Transmitem
aos outros como ensinamentos,
presentes.
Tenho muitos amigos contadores, um que até
já andou nas minhas crônicas,
com apelido de jogador de futebol e que sempre me
cobra por isso,
pois mesmo sem ter revelado seu nome, dei pista muito
precisa.
Ele é contador de primeira. Até as brigas
com a esposa viraram relatos cheios
de emoção, bom humor e aprendizado.
Já ouvi muitas vezes ele contando
sobre o dia em que ela estava furiosa por ele ter
chegado tarde de um jantar
com os colegas de trabalho. Não querendo escutar
mais nada e querendo
sim provocá-la, ele ligou o rádio, na
tomada. A esposa estava falando sem parar
e costurando. A raiva atrapalhou os pensamentos dela
e em um momento de ódio
extremo ela pegou a tesoura de metal e tentou cortar
o fio do rádio, para acabar
definitivamente com o motivo da desatenção
do marido. Claro que ela tomou
o maior choque e ficou duplamente furiosa. Para ele
foi difícil não rir,
pois apanharia na certa.
O que valoriza as histórias é a importância
que o contador dá aos personagens.
No caso de quem narra fatos da vida, é o valor
que é dado às pessoas,
em seus atos mais simples. O apreço pela vida.
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