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| Quase morte |
| Ana Mello * |
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Primeiro preciso dizer que sou uma pessoa que acredita.
Tenho fé na vida, nas coisas boas, nas pessoas
de palavra, em intuição,
em bons desejos e muito mais. Não tenho vergonha
disso,
de parecer ingênua ou tola, ou até de pagar
mico.
Acredito também em como experiências de
quase morte podem realmente
mudar a vida de uma pessoa. Claro que nem todos necessitam
de coisas
tão drásticas para reavaliar, repensar,
ou agir de forma diferente valorizando
as coisas que tem. Sempre fui observadora e aprendi
a aprender com os erros
dos outros, muitas pessoas agem assim, poupa sofrimento.
Isso tudo para dizer que assim, quase do nada, tive
uma pequena reviravolta.
De repente me vejo com pressão alta e artrite
reumatóide. Foi inevitável ver
na internet fotos de pessoas com pés e mãos
deformados por essa doença
e já vi minha vida de escritora condenada pela
possibilidade de não poder
escrever ou digitar. Tolice, eu ditaria para alguém,
o que iria requerer certa
adaptação, pois não é a
mesma coisa pensar falando para quem pensa escrevendo.
Teria de me adaptar.
Decidi que é melhor enfrentar uma coisa de cada
vez, embora muitas pessoas
ajudem bastante ao dizerem que estou realmente envelhecendo,
pois agora tenho
problemas. Nem tinha reparado!
Depois de dois meses de diagnóstico e medicação
errados, encontro um médico
inteligente, com bons argumentos e que além de
tudo explica e conversa
- coisa rara. Primeiro dia de remédio certo e
nada de dor ou dedinhos inchados.
Animada, sigo na vida fazendo tudo com disposição.
Só que o remédio está em teste.
Tomo cinco dias e paro outros cinco.
No segundo dia sem drogas, dor intensa em todos os ossinhos
das mãos, que coisa!
Resolvi não ceder e lembrei-me do meu pai, em
pleno dia 12 de junho,
quando faz dois anos que ele faleceu. Ele me disse uma
vez, que no dia
que morresse, ficaria no céu, na portaria, conversando
com São Pedro
e dando palpite na vida de quem fosse entrando. Então
mandei um recado,
um e-mail cósmico, pedindo pela saúde
das minhas articulações.
Acreditem ou não, passou tudo.
Se vai durar pouco ou muito? Não sei. Afinal,
a gente quase morre todo o dia. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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