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| O galo |
| Ana Mello * |
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Começou há uns quinze dias. Em plena madrugada,
quase no centro da cidade,
escuto um galo cantando, várias vezes. Dia após
dia a mesma coisa,
o galo cantado. Mais do que três vezes. Fiquei
intrigada, levantei, abri a janela,
escutei e não consegui descobrir da onde vinha.
Na semana seguinte,
estou lá no consultório do meu médico,
fazendo acupuntura, bem distante de onde
moro e no fim da tarde. Ouço um galo cantando.
Perguntei para a secretária
se ela ouvia também. Sim. Não era imaginação.
Os galos estão cantando
em plena cidade e em horário livre, é
isso.
Já tive galos e galinhas quando era criança
e lembro muito bem, os galos
cantavam quando o sol surgia e quando estavam namorando.
Morava em casa,
nada de edifícios e agitação da
cidade.
Na semana passada sai para o trabalho e em frente a
um prédio comercial,
pertinho do meu prédio, ouço o canto do
galo. Escutei daqui e dali e parecia vindo
da garagem. Não é possível, pensei.
O que eles fazem com um galo preso
na garagem. Na volta do trabalho encontrei um vizinho
do prédio ao lado
ao suposto prédio do galo. Comentei com ele,
perguntei se ele também ouvia.
Ele logo foi sorrindo e dizendo que o galo era do prédio
dele. Uma vizinha,
do apartamento térreo tinha recebido de presente
dois galos e mantinha os bichos
no apartamento. Há alguns dias um deles havia
morrido.
O outro estava doente, certamente não da garganta,
pois canta feito louco.
Os moradores do prédio estavam enlouquecidos,
pressionando a moradora
para dar uma vida melhor ao galo e para eles também.
A vizinha é muito
estranha e não admite que opinem sobre sua vida.
Não tenho nada contra galos, mas acho que eles
não devem morar
em apartamentos. Isso me fez lembrar a missa do galo,
não do conto do Machado
de Assis, mas da missa celebrada de vinte e quatro para
vinte e cinco de dezembro,
nunca consegui assistir, dormia cedo e depois acordava
para ver os presentes.
Uma vez perguntei por que a missa era do galo, explicaram,
quando Cristo nasceu,
o galo cantou a meia-noite. Espero que ninguém
conte isso para o galo da vizinha,
ele canta lá pelas quatro horas da manhã.
O que não é nada bom também,
mas a meia-noite seria insuportável. Só
falta agora descobrir se o nome da vizinha
é Conceição. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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