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Depois dos oitenta
Ana Mello
Não consigo imaginar o que eu vou fazer
com oitenta anos. Tenho tantas coisas
para fazer antes, que não posso prever as conseqüências
que terão no meu futuro,
tão distante.
Todos querem ter saúde em primeiro lugar, nessa
idade, mais do que em outras.
Ficar velho é bom com saúde, com qualidade.
Então fica mais difícil desejar
outras coisas, ainda mais coisas ousadas. As pessoas
com essa idade ou próxima,
que conheço, gostam também de assistir
televisão, ficar com a família,
desde que a família não incomode. Conversar
com amigos da mesma idade,
fazer passeios, assistir missa ou outros cultos religiosos.
Isso é bem comum, a proximidade com a fé,
com a religião. Acho que para
procurar conforto e para vencer o medo da morte. É
difícil se ver perto do fim,
com possibilidade de ficar doente e não conseguindo
nem sequer ir ao banheiro
sozinho. Embora isso possa acontecer em qualquer idade.
Acredito que poucas pessoas estão preparadas
para a morte natural, como fim
de possibilidades do corpo. Como fim de um tempo por
aqui. Ainda mais com tanta
gente bacana por perto, com netos, com novas histórias
para participar, com tantas
coisas que surgem a cada momento no mundo.
Nessa idade ninguém quer parar o mundo e descer.
Coisa que a gente vive dizendo
quando é mais novo.
Com oitenta, eu penso em viajar, ler muito, fazer cursos,
ginástica para terceira
idade, ir ao cinema no meio da tarde, beber vinho no
almoço e no jantar.
Isso se não der problemas com os remédios.
Isso se eu puder sair de casa,
isso se eu estiver viva. Vou planejar viver a cada dia,
sem pular etapas.
Mas tem uma senhora, a minha mãe, fez oitenta
anos este mês e me superou
em todas as expectativas. Simplesmente porque voltou
a estudar. Está freqüentando
um curso para terceira idade, cheia de planos e novidades,
fazendo os temas,
com material novo na pasta. Isso tudo a noite, três
vezes por semana.
O que ela mais quer? Simplesmente aproveitar a vida
que tem. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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ANA
MELLO
Escrevo porque tenho mais para dizer
do que consigo falar e olha que falo muito.
Pelos cotovelos, como diz minha mãe.
Estudei química e matemática e trabalho
na área técnica. Mas sempre fui poeta.
Escritora. Afinal escrevo sempre,
e tenho leitores. Dissolvo-me
em palavras pela rede e talvez um dia,
em papel, que será livro. Livro meu,
pois em antologias já estou espalhada
por aí. Nas janelas dos ônibus
e nos trens de Porto Alegre viajo
em forma de poesia. No mais,
busco a felicidade simples,
de viver apenas, fazer amigos
e aprender tudo o que puder.
Pois tenho certeza, nós não viemos
a este mundo a passeio.
Acesse o Blog : http://minicontosanamello.blogspot.com |
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