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Vergonha
Ana Mello
Acho que a maior vergonha que as pessoas têm é
de ficar nu. Na frente dos outros
é claro. Pois vergonha só se tem com testemunhas.
Da própria consciência, às vezes.
Mas o flagrante é o pior.
Ser pego em uma situação constrangedora
pode levar o sujeito a uma atitude
desesperada, como suicídio por exemplo. Ou atentar
contra a vida de outro, para que
se cale. Ou oferecer dinheiro, muito dinheiro. E aí
eu até me pergunto se é vergonha
ou medo de perder uma condição de vida
muito boa. Mas não vem ao caso agora.
Penso na vergonha de seres normais e honestos. Por exemplo,
pessoas
hospitalizadas se conscientes, no início, sentem
vergonha de ser banhadas,
vestidas, servidas. Depois simplesmente relaxam e deixam
as coisas
acontecerem normalmente. Perdem o pudor.
Para quem está de fora, a situação
até causa certo desconforto. Confesso que não
sei muito bem como esse processo acontece na cabeça
do sujeito. Além do mais
os padrões de beleza são muito rígidos
e estando fora deles fica mais difícil exibir
o corpo. Também os padrões de saúde,
de equilíbrio.
É ruim estar doente, ter uma cicatriz, ser muito
gordo ou muito magro. Padrões
e padrões. A vergonha gera tristeza, pois a pessoa
não tem onde se esconder,
onde ser feliz. Acho que ela só acaba quando
a pessoa assume mesmo o que é,
e se aceita daquele jeito. Estipula metas mais importantes.
No caso de alguém doente o objetivo é
estar bem, saudável e levando uma vida
normal. Ser cuidado, ficar nu na frente dos outros fica
muito pequeno diante de tudo.
Isso me fez lembrar uma coisa divertida. Quando era
adolescente sai com meus
amigos de colégio para um lanche. Vários
meninos e meninas tomando sorvete,
refrigerante, pagando sua própria conta. Era
o máximo. Um dos guris derramou
bebida nas calças e pediu para um colega buscar
uma calça limpa na casa dele.
Não iria até em casa daquele jeito. Mas
outro colega disse que com ele não teria
problema, apenas pediria um saco de papel para cobrir
a cabeça.
Ou seja, se ninguém souber que sou eu, tudo bem. |
| COLUNISTA
ANA MELLO |
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ANA
MELLO
Escrevo porque tenho mais para dizer
do que consigo falar e olha que falo muito.
Pelos cotovelos, como diz minha mãe.
Estudei química e matemática e trabalho
na área técnica. Mas sempre fui poeta.
Escritora. Afinal escrevo sempre,
e tenho leitores. Dissolvo-me
em palavras pela rede e talvez um dia,
em papel, que será livro. Livro meu,
pois em antologias já estou espalhada
por aí. Nas janelas dos ônibus
e nos trens de Porto Alegre viajo
em forma de poesia. No mais,
busco a felicidade simples,
de viver apenas, fazer amigos
e aprender tudo o que puder.
Pois tenho certeza, nós não viemos
a este mundo a passeio.
Acesse o Blog : http://minicontosanamello.blogspot.com |
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