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| COLUNISTA
ANA MELLO |
Explicando tudo
Ana Mello
Algumas pessoas gostam de explicar tudo, buscam as razões
incansavelmente.
Isso não é ruim, quem procura sempre encontra
alguma coisa, está aprendendo
e acrescentando experiências novas a sua vida. Contentar-se
com pouco e não
questionar é que atrapalha. Acho que isso é
quase unanimidade.
Porém, algumas coisas não precisam de justificativa
para serem boas, bonitas,
causarem prazer. Um livro é bom, mesmo que o leitor
não saiba tudo da vida
do autor, sua história, onde nasceu, as outras
obras que escreveu.
Uma pintura causa emoção num entendido em
artes e causa emoção a um simples
observador que admira as cores, a vida, as manifestações
da natureza.
A falta de conhecimento total ou de razão não
tira a beleza simples de qualquer
manifestação concreta ou de sentimentos.
Um aperto de mão, um abraço,
vale por si só, embora muitas vezes outra intenção
possa precedê-los.
Um amigo, de um amigo meu, que adora arranjar motivos
para tudo, ficou surpreso
ao saber que seu pai moribundo fora cuidado por um amigo
dele. O amigo era pobre,
aposentado e sozinho. Mesmo assim gastou toda sua energia
e seu dinheiro para
zelar por ele até os seus últimos dias de
vida.
Depois de muito procurar por motivos que justificassem
tal ato, já que a amizade
para ele não bastava, chegou à simples conclusão
que a solidão mobilizara o velho.
Ele não tinha quem cuidar e ninguém para
fazer-lhe companhia. Perguntamos a ele
se isso realmente importava para justificar uma atitude
de solidariedade. Não soube
responder, não vive, nem faz nada sem ter algo
prático que o justifique.
Quem precisa dizer por que a luz do sol é tão
bonita nos dias de inverno? Ou por que
os sabores da infância trazem tão boas lembranças?
Qual motivo nos faz dizer coisas
boas ou ter bons desejos para alguém que não
conhecemos? Esses motivos estão
na alma, no coração. Coisas boas não
precisam de razão. |
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