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ARTIGOS


Rir é o melhor remédio

Ana Mello

Quando eu era adolescente alugamos uma casa que tinha uma peça separada
nos fundos do terreno. Logo descobri a chave, e numa tarde em que estava sozinha
resolvi desvendar os mistérios do anexo. Era uma pequena biblioteca com uma
imensa coleção da revista Seleções. A revista existe até hoje, aliás, completa
sessenta e cinco anos de publicação. Um dos segmentos é o “Rir é o melhor
remédio”. Na época fiquei viciada e li em todas as revistas, uma a uma.
Adorava dar risadas, passava as tardes assim, lendo e rindo. As piadas eram boas,
sem maldade, mas muito divertidas. E quem não gosta de rir?
Até hoje procuro sorrir sempre, achar um lado engraçado nas coisas. Não um
deboche ou falta de respeito, mas uma graça, um motivo para dar uma gargalhada
e relaxar um pouco. Isso acaba me ajudando porque eu rio das minhas próprias
gafes e ainda conto para os outros. Acho que é genético, meu pai era assim.
Ele morreu faz pouco, já contei, e quando ele já estava em coma, minha mãe
me deu uma tarefa muito difícil. Eu deveria ir ao cemitério, no jazigo da família,
onde estão enterrados meus antepassados, para verificar as condições e arrumar
o que fosse preciso. Além de o local me provocar arrepios, a tristeza por estar
precipitando algo que eu não queria passar me corroia por dentro. Enfrentei.
E como precisava de uma reforma tive que tratar com um senhor já antigo
no trabalho, muito falante e solidário. Ao perceber minha tristeza ele perguntou
todos os detalhes e tentando me consolar disse que o que eu estava fazendo
era o certo, e que a maioria das pessoas que toma essa atitude acaba dando sorte
para o doente que dura mais um mês até. Para ajudar saiu contando outros casos
dando exemplos e apontando os túmulos em reforma.
Na hora só pude rir da simplicidade do homem, que acostumado com a morte
julgava que uns dias a mais poderiam me servir de consolo. A risada aliviou minha
tensão e me fez ver que tudo isso não era nada diante das muitas coisas boas
que eu tinha feito com meu pai enquanto ele tinha saúde e o quanto tínhamos rido
juntos.

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