Um amigo
Ana Mello
Como é bom ter amigos. Tenho muitos. Amigos vão e vem. Alguns marcam
muito a vida da gente.
Na semana passada, bem no dia dos namorados, perdi um grande amigo.
Resolveu que nessa vida nosso convívio estava terminado.
Ele sempre foi um cara simples, trabalhava bastante. Bom humor, alegria,
era com ele mesmo. A esposa dizia que ele reclamava demais, invocado
com coisas pequenas, como as novelas na televisão, a demora do ônibus,
as notícias ruins do jornal. Para mim nunca reclamava muito. Só reclamou
da morte, não queria morrer. Também não queria dar trabalho e isso pesou
na decisão dele. Resolveu partir.
Adorava contar piadas e provocar risos. Repetia algumas, poucas vezes.
Era louco por comida e curtia um bom aroma no fogão da cozinha,
mesmo quando a cebola ainda fritava e o arroz ainda estava sendo escolhido.
Por doces era apaixonado e foi penitenciado pela diabetes. Mas no paraíso
o doce é liberado.
Apaixonado também pela família, dizia e mostrava sempre.
Por isso e muito mais, deixou saudade esse amigo que sempre me apoiou
para seguir em frente, para estudar, trabalhar, ser feliz. Só me deu bons
conselhos, aliás, adorava dar conselhos amorosos, sobre a vida conjugal.
Dizia que as mulheres são poderosas, mais do que uma junta de bois.
Inteligente esse amigo que por acaso foi meu pai.
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