Questão de concordância
Ana Mello*
Tenho um amigo que de vez em quando é meu chefe. É difícil separar os dois personagens,
pois não posso dizer para um o que diria facilmente para outro.
O problema é o seguinte, respeito a hierarquia, mas não consigo aceitar como ela é utilizada,
na maioria das vezes. Eu prefiro caminhos diretos e objetivos.
Isso vem da infância, eu obedecia meus pais, mas em determinados momentos eles
me irritavam, mesmo estando absolutamente certos e precisos. Eu não admitia que
determinassem meus atos. Principalmente quando não diziam isso de maneira transparente.
Tenho problemas para aceitar que me digam o que fazer, mais ainda em horas
em que
eu quero fazer outra coisa. É um capricho, uma mania ou rebeldia.
Bom, isso fica claro, pois não consigo esconder quase nada do que penso e sinto,
nem quero mesmo, prefiro ser assim, previsível. Então, meu amigo, no momento chefe,
usando a delicadeza de amigo e a responsabilidade de chefe, precisa me passar uma tarefa.
Ele diz:
- Vamos executar o seguinte trabalho.
Eu respondo:
- Fique a vontade para fazer você mesmo - só de birra.
Nem precisa dizer que ele usa a primeira pessoa do plural, nós, quando gostaria de usar
mesmo a segunda pessoa do singular, tu. Mas depois acabo executando a tarefa. Ele faz
isso sempre, mesmo em questões que não se referem ao trabalho.
É uma questão de concordância verbal, que ele encara como solidariedade. Usa nós só
como apoio a causa, o que não resolve nada, pois apoiar não é executar nem o todo nem
a parte. Ou a parte dele será uma final, depois da minha parte inicial feita com data e hora
marcada.
Como no final tudo se encaixa, os personagens são os amigos, acho melhor explicar
que isso é só uma crônica e “nós” não devemos levar nada disso a sério.
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